A universalidade da cruz na Umbanda

A cruz é um dos símbolos mais conhecidos do mundo, mas também um dos mais interpretados de forma limitada. Para muitas pessoas, ela está associada quase exclusivamente à dor, ao sofrimento e à morte de Jesus Cristo. Essa visão foi reforçada ao longo dos séculos por instituições religiosas que, em determinados períodos da história, enfatizaram o sofrimento como forma de controle e de construção de obediência. No entanto, quando observamos com mais atenção a trajetória desse símbolo e os próprios ensinamentos de Jesus, percebemos que a cruz carrega significados muito mais amplos e antigos.

No O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente no Capítulo XI – “Amar o próximo como a si mesmo”, encontramos uma chave importante para compreender essa mudança de perspectiva. Nesse capítulo, a essência do ensinamento de Jesus não está na dor, mas no amor como lei universal. Ele não propõe uma espiritualidade baseada no medo ou na submissão, mas na consciência, no respeito e na transformação interior. Jesus simplifica o caminho espiritual. Ele aproxima o divino do humano e mostra que a evolução se dá pela prática do amor, não pela glorificação do sofrimento.

Quando olhamos por esse prisma, a cruz deixa de ser apenas um instrumento de execução e passa a representar um compromisso com esse princípio maior. Não é a dor que define o legado de Jesus, mas a forma como ele ensinou a viver.

Essa reflexão se amplia quando consideramos perspectivas contemporâneas, como a apresentada pela espiritualista Mônica Buonfiglio no livro "Jesus: A visão de uma espiritualista sobre o homem que desceu da cruz". A autora propõe uma leitura diferente da narrativa tradicional, levantando a possibilidade de que Jesus possa não ter morrido na cruz da maneira como foi consolidado pela tradição bíblica. Independentemente de se concordar ou não com essa hipótese, o ponto central da reflexão é importante: a cruz não pode ser reduzida ao sofrimento, porque o legado de Jesus é muito maior do que o momento da crucificação.

E, historicamente, a cruz realmente não nasceu como símbolo de dor.

No Egito Antigo, por volta de 3000 a.C., surge a chamada cruz Ankh, um dos primeiros registros conhecidos desse formato simbólico. Diferente da associação posterior com dor, ela representava vida literalmente. Em hieróglifos egípcios, o Ankh significava “vida” ou “vida eterna”, e era frequentemente retratado nas mãos dos deuses, que o ofereciam aos faraós como um “sopro divino”. Escavações arqueológicas do século XIX revelaram sua presença em tumbas, templos e amuletos, reforçando seu uso em rituais funerários e iniciações espirituais. Como aponta a World History Encyclopedia, o símbolo estava diretamente ligado à ideia de continuidade da existência após a morte.

Na África Central, especialmente entre os povos Bakongo, encontramos o cosmograma Dikenga, uma cruz inscrita em um círculo. Esse símbolo representa o ciclo da vida: nascimento, crescimento, morte e renascimento. Mais do que isso, ele marca a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos ancestrais. Segundo estudos reunidos em registros como os da Encyclopedia of African Religion, a linha horizontal dessa cruz simboliza exatamente esse limite, enquanto a vertical conecta dimensões espirituais. Aqui, a cruz é movimento e um fluxo contínuo da existência.

Enquanto isso, em diferentes partes das Américas, povos originários estruturavam sua visão de mundo a partir de uma lógica semelhante, ainda que sem necessariamente desenhar uma cruz como objeto. A chamada “roda medicinal”, documentada em estudos antropológicos, organiza o universo em quatro direções: norte, sul, leste e oeste. Cada ponto representa elementos da natureza, fases da vida e dimensões espirituais. Aqui, a cruz não é um símbolo isolado, mas uma estrutura viva: o ser humano no centro de forças que precisam estar em equilíbrio. Não se trata de adoração a um objeto, mas de uma cosmologia.

Esse panorama muda drasticamente com o Império Romano. A cruz, que antes simbolizava vida, equilíbrio ou ancestralidade, passa a ser instrumento de execução. Herdada de práticas persas e cartaginesas, a crucificação foi adotada pelos romanos como forma de punição exemplar. Escravos, rebeldes e estrangeiros eram expostos publicamente, submetidos a uma morte lenta e humilhante. Após a revolta de Espártaco, no século I a.C., cerca de seis mil pessoas foram crucificadas ao longo da Via Ápia o qual era um espetáculo de terror cuidadosamente planejado para reforçar o poder do Estado, como relatam historiadores como Plutarco. É nesse contexto que ocorre a crucificação de Jesus e, com ela, a reviravolta simbólica. A Cruz deixa de ser um símbolo de vergonha e dor e se transforma, gradualmente, em símbolo de fé, amor e redenção. No entanto, os primeiros cristãos resistiram a essa imagem de Jesus na cruz. Durante séculos, preferiram símbolos como o peixe (Ichthys), evitando representar diretamente a cruz. 

Uma das primeiras imagens conhecidas de um crucificado, o Alexamenos Graffito, não foi um ato de devoção, mas de zombaria: um desenho em que um homem adora uma figura crucificada com cabeça de animal. A mensagem era clara, para muitos, a ideia de um Deus crucificado era absurda. Somente séculos depois a cruz seria ressignificada dentro do cristianismo como símbolo central. E mesmo assim, as primeiras representações de Cristo na cruz o mostravam vivo, sereno, muitas vezes com os olhos abertos e bem distante da imagem de sofrimento que se popularizaria posteriormente.

Mas é importante lembrar que o legado de Jesus não se resume à cruz física. Seu ensinamento aconteceu antes dela. E continua depois dela.

Quando esse símbolo da cruz chega ao Brasil e encontra a formação da Umbanda, ele passa por mais uma transformação. A Umbanda nasce do encontro entre tradições indígenas, africanas e cristãs. Esse encontro não apaga as diferenças, nem ignora as dores da história. Pelo contrário, reconhece que culturas indígenas e africanas foram perseguidas e violentadas sob estruturas que muitas vezes utilizavam símbolos cristãos como forma de imposição. Por isso, não é raro que algumas pessoas torçam o nariz quando veem a cruz ou a imagem de Cristo dentro da Umbanda. Existe uma memória coletiva que precisa ser respeitada. No entanto, a Umbanda propõe algo diferente. Em vez de rejeitar símbolos, ela os ressignifica. Em vez de excluir, ela integra, principalmente, porque a Cruz e/ou Jesus pode ter sido (e são usadas) para perseguir, mas em sua essência, Cristo nunca ensinou a rejeição e violência.

E talvez um dos melhores exemplos de como um símbolo pode ser mal interpretado ao longo da história seja a suástica. Muito antes de sua apropriação pelo regime nazista, ela era um símbolo milenar presente em diversas culturas, como no hinduísmo, representando prosperidade, movimento, proteção e equilíbrio cósmico. Sua distorção histórica não apaga seu significado original, mas revela como símbolos podem ser manipulados conforme o contexto. A cruz, de certa forma, também passou por esse processo. De símbolo de vida, passou a instrumento de morte, e depois foi novamente ressignificado espiritualmente, mas também usado pela humanidade para explorar.

Dentro da Umbanda, essa ressignificação se torna prática viva, especialmente nos pontos riscados. No ponto riscado, a cruz não é um desenho decorativo. Ela é fundamento espiritual.

A linha horizontal representa o plano da manifestação, onde se expressam as experiências humanas e as polaridades da vida. Nela encontramos a relação entre esquerda e direita, entre forças que muitas vezes são interpretadas como opostas, mas que na verdade se complementam. Na Umbanda, isso pode ser compreendido também como o equilíbrio entre campos de atuação espiritual, entre movimento e sustentação, entre transformação e orientação. Essa linha também pode ser associada ao masculino e ao feminino, não como gênero biológico, mas como energias presentes na natureza e na espiritualidade. A vida acontece quando essas forças entram em equilíbrio.

Já a linha vertical representa a ligação entre dimensões. Ela conecta céu e terra, espírito e matéria, divino e humano. É o eixo da mediunidade, da intuição e da atuação dos guias espirituais. É por esse eixo que as forças espirituais se manifestam e orientam o trabalho dentro do terreiro.

Quando essas duas linhas se encontram, formam o ponto central. E esse ponto é o lugar do ser humano. O lugar do médium. O lugar do espírito em evolução, ou sendo mais didático, o equilibrio, a interceção perfeita, representada pela figura de Jesus.  A cruz, então, deixa de ser apenas um símbolo externo e passa a representar a própria condição espiritual do indivíduo.

Essa leitura se torna ainda mais rica quando consideramos que as entidades da Umbanda carregam vivências de diferentes culturas e lugares do mundo. Cada linha espiritual traz consigo suas referências simbólicas. Pretos-Velhos, por exemplo, trazem uma forte ligação com a ancestralidade africana. A sabedoria, a paciência e a compreensão do ciclo da vida fazem com que a simbologia africana esteja muito presente em sua forma de trabalhar e ensinar.  Caboclos trazem a herança dos povos originários, a conexão com a natureza, com as direções e com o equilíbrio da terra. 

Exus e Pombagiras atuam nas encruzilhadas, que são, em essência, a manifestação viva da cruz no mundo material. A encruzilhada representa escolha, transformação e movimento. É onde caminhos se encontram e novos destinos podem ser definidos. E aqui cabe uma leitura simbólica importante: o tridente de Exu pode ser compreendido, em alguns contextos, como uma expansão dessa estrutura da cruz. Ele aponta caminhos, direciona forças e atua nas interseções da vida. Embora não seja uma representação direta da cruz tradicional, carrega a ideia de múltiplos caminhos, escolhas e conexões,  elementos que dialogam com o conceito de encruzilhada.

Isso mostra que a cruz, na Umbanda, não pertence a uma única tradição. Ela reúne experiências espirituais diferentes que se encontram no mesmo espaço. E é justamente por isso que o trabalho de adoração à cruz realizado todos os anos na Fraternidade de Umbanda Senzala Rosas de Oxalá possui um significado tão profundo. Mesmo diante de críticas e incompreensões, esse trabalho continua acontecendo porque está fundamentado em um entendimento espiritual amplo e respeitoso.

Algumas pessoas interpretam esse ritual como se fosse a exaltação de antigos opressores, mas essa leitura não corresponde ao que realmente acontece. Na verdade, o trabalho é um momento de consciência espiritual e de gratidão, reunindo os significados primários das influencias africanas, indígenas, além do amor de Cristo que a cruz deve carregar. Como ensina nossos Pretos-Velhos e dirigentes Pai Joaquim de Aruanda e Pai Joaquim da Roda, a adoração à cruz na Sexta-feira Santa é um momento de agradecer. Agradecer pelas provas, pela caminhada, pelas oportunidades de crescimento espiritual e ao equilíbrio natural.

Nesse contexto, a cruz não representa dor.  Ela representa aprendizado. Ela reúne o sentido de vida presente no Egito, o equilíbrio vivido pelos povos originários, a ancestralidade africana e o ensinamento de amor trazido por Jesus. Tudo isso coexistindo dentro de uma religião que se constrói a partir da pluralidade e do respeito.

Talvez seja justamente essa pluralidade que cause estranhamento para alguns. Mas é também ela que revela a profundidade da Umbanda porque, quando compreendida em sua essência, a cruz não separa tradições. Ela une caminhos.


Tema da aula 5.0 do Estudo de Umbanda realizado na Fraternidade de Umbanda Senzala Rosas de Oxalá em 25 de Março de 2026. 

@senzalarosasdeoxala

Bibliografia


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