A infantilização da fé e o sagrado feminino incompreendido
No capítulo XIX de O Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado “A fé transporta montanhas”, encontramos o subitem que muitas vezes passa despercebido, mas que guarda uma profundidade simbólica muito grande. O texto afirma que “a fé é a mãe da esperança e da caridade”. O Evangelho apresenta a fé como mãe, uma imagem que imediatamente evoca o arquétipo do feminino. Não se trata apenas de uma metáfora poética. Trata-se de uma verdadeira pedagogia espiritual.
Quando o texto diz que a fé é mãe, ele indica que dela nascem duas outras virtudes: a esperança e a caridade. Essa tríade pode ser compreendida como um processo de amadurecimento espiritual. A fé seria a força que gera, a esperança o tempo do crescimento e a caridade a realização concreta do amor. Em uma leitura simbólica, poderíamos dizer que a fé expressa uma energia feminina, pois é a que gera e sustenta; a esperança representa uma energia intermediária ou neutra, o período de desenvolvimento (infância); e a caridade manifesta a energia masculina, que age, decide e transforma em atitude aquilo que nasceu no interior da alma (fase adulta).
Essa interpretação não coloca masculino e feminino em oposição. Ao contrário, revela um movimento complementar. O feminino gera, o tempo amadurece e o masculino realiza. Esse movimento aparece na natureza, na vida humana e também na vida espiritual.
O problema surge quando esse processo não se completa. Muitas pessoas permanecem apenas na primeira etapa, a fé emocional, a fé que pede, espera e acredita. No entanto, não avançam para a esperança madura e, sobretudo, para a caridade ativa. Quando isso acontece, a fé pode deixar de ser um impulso de crescimento e se tornar uma forma de dependência. Surge então aquilo que podemos chamar de infantilização da fé.
Essa infantilização também está relacionada a uma compreensão limitada do próprio sagrado feminino. Culturalmente, o feminino foi muitas vezes reduzido à ideia de sensibilidade ou fragilidade. Espiritualmente, porém, o feminino não representa apenas acolhimento. Ele também simboliza força geradora, resistência, sabedoria e transformação. Basta observar a natureza. A terra nutre, mas também transforma. O mar acolhe, mas também possui uma potência imensa. O feminino espiritual é criador e transformador.
Ao longo da história religiosa, o papel simbólico do feminino foi frequentemente restringido. No cristianismo institucional, por exemplo, a figura feminina mais destacada é Maria, associada à maternidade, à pureza e à devoção. Embora profundamente respeitada, ela aparece sobretudo como símbolo de cuidado e entrega, enquanto as estruturas de autoridade espiritual permaneceram majoritariamente masculinas. Dessa forma, o masculino foi associado ao poder e à liderança, enquanto o feminino ficou ligado principalmente à doçura e ao acolhimento.
Curiosamente, a Umbanda preserva uma visão mais ampla desse equilíbrio de forças. Entre os orixás femininos encontramos manifestações muito diferentes do sagrado feminino. Oxum está ligada ao magnetismo, à fertilidade e à prosperidade. Iemanjá simboliza maternidade e proteção espiritual. Iansã expressa movimento, coragem e transformação. Nanã representa ancestralidade e sabedoria profunda.
O feminino também se manifesta nas linhas de trabalho espiritual da Umbanda. Pretas-velhas, caboclas, baianas, pombagiras, ciganas, marinheiras e boiadeiras são exemplos de como essa presença atravessa praticamente toda a estrutura da religião.
Mesmo assim, não é raro encontrar certos preconceitos sutis dentro da própria vivência religiosa. Algumas pessoas tendem a valorizar mais arquétipos considerados fortes, geralmente associados ao masculino. Há quem declare, por exemplo, preferir Xangô por associá-lo à justiça e ao poder, enquanto subestima Iansã, esquecendo que ela representa uma das forças mais intensas e transformadoras do panteão espiritual e representa o polo feminino da mesma energia que Xangô. Algo semelhante acontece nas linhas de trabalho. Alguns consulentes dizem preferir consultar com um preto-velho e evitam as pretas-velhas, afirmando que elas “só mandam comer inhame” ou que “só dizem coisas simples e distribuem terços”. No entanto, justamente nessa simplicidade e humildade existe uma sabedoria profunda. Enquanto muitos procuram respostas complexas, essas entidades frequentemente apontam para o essencial.
A incompreensão do feminino também pode gerar uma distorção curiosa. Algumas pessoas passam a imaginar a espiritualidade como se fosse uma mãe responsável por resolver tudo. Nesse imaginário, o mundo espiritual deveria prover, proteger, adivinhar e solucionar todos os problemas da vida humana (como é a figura maternal da sociedade). A fé passa então a ser vista como um mecanismo que dispensa responsabilidade pessoal: "Tudo é culpa da mãe".
É nesse ponto que surge a infantilização da fé. A pessoa começa a sentir que não consegue decidir nada sem consultar o guia espiritual. Pergunta sobre cada escolha, cada detalhe da vida cotidiana. Espera soluções rápidas e quase mágicas. Quando a resposta não vem, ou quando não corresponde ao que deseja, surgem frustração, reclamação e até afastamento religioso. É uma reação muito semelhante à birra de uma criança que não recebe aquilo que quer.
A espiritualidade verdadeira, porém, não foi criada para produzir dependência. Os guias espirituais não existem para substituir o livre-arbítrio humano. Eles orientam, fortalecem, consolam e despertam consciência. O verdadeiro guia não cria seguidores dependentes. Ele forma consciências capazes de caminhar por si mesmas. E não conseguimos fazer isso sem equilibrar as nossas energias masculinas e femininas.
Talvez por isso uma pergunta simples possa provocar uma reflexão profunda. Se seu guia não pudesse falar com você por seis meses, sua fé continuaria de pé? Para muitas pessoas, essa pergunta produz um silêncio revelador, porque mostra se a fé está baseada em convicção interior ou apenas na necessidade constante de respostas espirituais.
As entidades espirituais não buscam dependência, idolatria ou submissão. O que elas realmente desejam é crescimento, consciência e maturidade espiritual. A fé que o Evangelho apresenta como mãe da esperança e da caridade não é uma fé que aprisiona. É uma fé que educa.
Uma mãe verdadeira não cria filhos eternamente dependentes. Ela nutre, fortalece e prepara para a vida. Da mesma forma, a fé autêntica gera esperança, amadurece a alma e se manifesta finalmente em caridade, a ação consciente no mundo.
Quando isso acontece, o sagrado feminino deixa de ser visto como fragilidade. Ele revela sua verdadeira natureza: uma força espiritual que gera vida, sustenta o crescimento da alma e conduz o ser humano à maturidade. O sagrado feminino também não fragiliza ou compete com o masculino. Equilibre-se!
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