A guerra da mulher: Terra e Céu.

O 8 de Março costuma chegar envolto em flores, homenagens e discursos que celebram a força feminina. Mas por trás dessa data existe uma história marcada por luta constante. A mulher trava batalhas todos os dias para existir com dignidade. Essa guerra acontece nas ruas, nas casas, nas instituições e, de forma menos discutida, também no campo espiritual.

Na vida encarnada, os conflitos são conhecidos. Violência doméstica, assédio cotidiano, desigualdade salarial, desvalorização profissional e a cobrança permanente para cumprir papéis contraditórios. A mulher deve ser forte, mas não autoritária. Sensível, mas não frágil. Líder, mas não dominante.

Há ainda um fenômeno doloroso que atravessa essas relações. O machismo reproduzido entre as próprias mulheres. Muitas acabam internalizando valores que foram historicamente impostos por uma cultura patriarcal e passam a julgar outras mulheres pela forma como vivem sua sexualidade, sua maternidade ou sua independência. Esse comportamento não surge de forma isolada. Ele é fruto de séculos de estruturas sociais que ensinaram que o feminino precisava ser controlado. E nesse ponto, o machismo vence disparado porque são muito mais unidos e cúmplices para manter sua posição social. 

Quando se observa o campo espiritual, percebe-se que essa lógica não desaparece. Ela apenas assume outras formas.

Em muitas tradições religiosas, a mulher espiritual é frequentemente associada ao acolhimento, à emoção e à mediunidade sensível. Esses atributos são importantes, mas acabam sendo usados para restringir a compreensão do poder feminino. O feminino espiritual passa a ser interpretado como algo ligado à psique, à sensibilidade ou à matéria emocional, enquanto as dimensões de comando, estratégia e autoridade espiritual são associadas, mais comumente, ao masculino.

Essa estrutura aparece claramente na história do cristianismo institucional. O cristianismo consolidou ao longo dos séculos uma estrutura de poder exclusivamente masculina. O reconhecimento do sagrado feminino dentro dessa tradição surgiu de forma tardia e limitada. Mulheres passaram a ser oficialmente reconhecidas como santas séculos depois, mas quase sempre em papéis muito específicos. Até hoje, a presença feminina no cristianismo institucional é resumida majoritariamente às santas. Não existem mulheres ocupando a liderança suprema da Igreja, como o papado, por exemplo. O poder espiritual institucional permanece estruturado em torno de figuras masculinas.

Esse debate não se trata de retirar Jesus Cristo do centro da fé cristã. Para os cristãos, Jesus representa a encarnação do divino na matéria. A pergunta que naturalmente surge é outra. Se existe uma representação divina masculina manifestada na carne, onde estaria a representação feminina dessa mesma dimensão divina?

Alguns apontam que Jesus Cristo representa a figura espiritual masculina e feminina, no entanto, se contradizem nas posições quanto a sexualidade e gêneros, já que a maioria do preconceito nessas questões é fundamentalmente religioso e na definição binária: Homem ou Mulher. 

Outros apontam para a figura de Maria, mãe de Jesus. No entanto, mesmo essa presença feminina enfrenta ambiguidades dentro do próprio cristianismo. Algumas tradições cristãs sequer a reconhecem como santa ou objeto de veneração, enquanto outras permitem devoção, mas reforçam constantemente que ela não deve ser colocada acima de Cristo. 

Mesmo entre as santas reconhecidas oficialmente, muitas histórias são apresentadas quase sempre a partir de virtudes específicas como submissão, sacrifício, obediência e dedicação à Igreja. São qualidades importantes dentro da tradição cristã, mas que acabam reduzindo a complexidade da experiência espiritual feminina.

Esse cenário ajuda a entender porquê o reconhecimento pleno da potência espiritual feminina ainda encontra tanta resistência em diferentes tradições religiosas.

Quando olhamos para a Umbanda, no entanto, encontramos um universo espiritual onde o feminino aparece de forma muito mais plural e ativo. As linhas espirituais revelam mulheres que curam, aconselham, protegem, enfrentam injustiças e comandam caminhos. Mesmo assim, o reflexo das estruturas sociais também aparece dentro dos terreiros.

Entre as entidades femininas da esquerda espiritual, por exemplo, muitas histórias falam de mulheres que enfrentaram preconceitos sociais profundos e transformaram essas experiências em força. Um exemplo conhecido é Maria Mulambo, cuja trajetória simbólica representa transformação, superação da humilhação social e resgate da dignidade. Sua presença espiritual mostra como a dor da exclusão pode ser transformada em sabedoria e poder. 

A Umbanda também apresenta figuras femininas profundamente ligadas à sabedoria ancestral. As pretas-velhas simbolizam resistência, cura e paciência construída ao longo de vidas marcadas pela dor histórica da escravidão. As caboclas trazem a força da terra, da estratégia e da proteção espiritual. As baianas expressam alegria, acolhimento e firmeza diante das dificuldades da vida. As ciganas representam liberdade, prosperidade, movimento e sabedoria intuitiva.

Esse conjunto de arquétipos mostra algo muito importante. No plano espiritual da Umbanda, o feminino não é apenas sensível. Ele também é guerreiro, estratégico, líder e transformador, principalmente, nas figuras dos Orixás femininos, as Yabás.

Mesmo assim, as mulheres encarnadas que atuam dentro da religião ainda enfrentam desafios significativos.

As mães de santo frequentemente carregam um peso duplo. Sofrem a intolerância religiosa direcionada às tradições afro-brasileiras e, ao mesmo tempo, enfrentam o machismo estrutural presente na sociedade. Muitas precisam provar repetidamente sua capacidade de liderança para receber o mesmo respeito concedido com mais facilidade aos pais de santo. 

Existe ainda um fenômeno curioso dentro dos terreiros. Certas lideranças femininas acabam sendo mais respeitadas quando sua atuação está associada à incorporação ou influência de entidades masculinas consideradas mais fortes. Como se a autoridade espiritual da mulher precisasse ser legitimada por uma presença masculina, espiritual ou não.

Esse paradoxo revela algo profundo. Mesmo em uma religião que apresenta inúmeras entidades femininas poderosas, o olhar social ainda carrega heranças patriarcais que influenciam a forma como a liderança espiritual é percebida.

Por isso, quando se fala da guerra da mulher, não se trata apenas de uma disputa social. Trata-se também de uma disputa simbólica dentro do campo espiritual.

E talvez seja justamente na Umbanda que encontramos uma das respostas mais profundas para essa reflexão.

Nos terreiros, mulheres aparecem como orixás, caboclas, pretas-velhas, baianas, ciganas e pombogiras. Elas acolhem, aconselham, curam, protegem e lutam. Mostram que sensibilidade não é fraqueza e que emoção também pode ser uma forma de poder.

No fundo, o que essas presenças espirituais ensinam é simples e profundo:

  • O feminino nunca foi menor. 

  • O feminino apenas foi, por muito tempo, mal compreendido.

  • O feminino não existe para competir com o masculino.

As energias espirituais não travam uma disputa de superioridade. Elas se completam.

Assim como na natureza e na própria estrutura do universo espiritual, as forças masculinas e femininas caminham juntas. Quando uma delas é diminuída, o equilíbrio se rompe. Quando ambas são reconhecidas, nasce a verdadeira harmonia. 

Que isso se repita em nossa sociedade. 

Feliz dia das mulheres!


Comentários

  1. Nossa que lindo ! Muito obrigada pelo excelente texto. Ter pontos de reflexões é muito importante para a mudança que queremos no mundo.

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