Oxumaré: O movimento da vida

Um itan conta que Oxumarê era um grande babalaô que prestava seus serviços ao rei de Ifé. Embora fosse reconhecido por seu conhecimento, o rei não lhe dava o devido valor e recompensava mal o seu trabalho. Quando deixou de ser útil aos olhos do rei, Oxumarê perdeu sua posição e passou por um período de dificuldade. Foi então procurado por Olokun, que precisava de seus conhecimentos. Oxumarê consultou Ifá e orientou a realização de uma oferenda. Depois do ritual, Olokun reconheceu seu valor, convidou-o para permanecer em seu palácio e lhe deu riquezas, entre elas búzios e um tecido de muitas cores. Quando Oxumarê usava o tecido, suas cores apareciam no céu, formando o arco-íris.

A narrativa apresenta dois aspectos que acompanham Oxumaré em diferentes tradições: a mudança de condição e a riqueza. Ele deixa uma situação de desvalorização e passa a ocupar outro lugar, levando consigo aquilo que realmente possuía, seu conhecimento. O arco-íris aparece associado à sua passagem por diferentes espaços, enquanto os búzios remetem à riqueza. É uma narrativa sobre transformação, reconhecimento e prosperidade, mas também sobre a capacidade de uma condição mudar.

O nome do Orixá já nos coloca diante de seu símbolo mais conhecido. Em iorubá, Òṣùmàrè significa arco-íris. A palavra também designa o fenômeno natural, e o nome da divindade está diretamente relacionado a ele. 

Existe uma dúvida bastante comum por causa da semelhança entre Oxumaré e Oxum. Os nomes parecem próximos em português, mas não há base linguística segura para afirmar que Oxumarê seja uma combinação de “Oxum” com alguma outra palavra ou que exista uma relação etimológica entre os dois Orixás. Òṣùn, nome de Oxum e também do rio associado à divindade, aparece como uma palavra diferente de Òṣùmàrè. 

A semelhança sonora entre os nomes se deve à forma como palavras iorubás foram adaptadas para a escrita e a pronúncia brasileiras. Não devemos transformar essa aproximação fonética em parentesco linguístico. O que existe entre Oxum e Oxumaré é outra coisa: ambos possuem relações importantes com a água, a riqueza e a continuidade da vida, mas cada um expressa essas dimensões de maneira própria.

Oxum está associada às águas doces, aos rios, à fecundidade, à gestação, à sexualidade, à beleza, ao cuidado e à capacidade de gerar e nutrir. Sua relação com a prosperidade está profundamente ligada à fecundidade e àquilo que pode ser produzido, atraído, cuidado e multiplicado. Oxumaré aparece associado à riqueza, à fortuna e à abundância por outro caminho. Sua relação com a prosperidade está ligada à circulação, à chuva, aos ciclos naturais e à capacidade de renovação.

A diferença fica mais clara quando observamos a própria imagem da chuva. A água que cai sobre a terra permite que a plantação cresça, mas o interesse simbólico de Oxumaré está no percurso dessa água, no movimento entre céu e terra e na continuidade do ciclo. A riqueza não aparece apenas como aquilo que se possui, mas como aquilo que circula e permite que novos recursos sejam produzidos. Em registros da tradição afro-brasileira, Oxumarê aparece associado tanto ao arco-íris e à serpente quanto à riqueza, à continuidade e aos movimentos constantes. 

Por isso, chamar Oxumaré de Orixá da prosperidade sem explicar a natureza dessa prosperidade pode gerar confusão com Oxum. A prosperidade de Oxumaré está relacionada à continuidade da circulação. A água precisa circular, a chuva precisa retornar, a terra precisa receber aquilo que a faz produzir e a riqueza precisa participar de um fluxo. É uma prosperidade que depende do movimento e da renovação.

A serpente e o arco-íris são os dois grandes símbolos que concentram essa compreensão. A serpente está ligada à terra e à mudança de pele. O arco-íris aparece no céu depois da chuva. Um se desloca junto ao chão; o outro se manifesta no alto. Um abandona uma pele e continua vivendo; o outro surge e desaparece conforme as condições atmosféricas. A água participa dos dois mundos.

Em algumas representações, Oxumaré aparece como uma serpente que forma um círculo ou morde a própria cauda. O círculo expressa continuidade, ausência de um ponto final e retorno. A serpente também pertence ao universo das coisas alongadas, característica tradicionalmente associada a Oxumaré, assim como o arco-íris. Há registros que relacionam ainda o Orixá ao cordão umbilical, reforçando sua associação com continuidade e longevidade. 

O arco-íris possui outra dimensão. Ele é resultado da relação entre água e luz e estabelece uma imagem de ligação entre céu e terra. Em diferentes narrativas, Oxumaré aparece como aquele que realiza esse percurso das águas, aproximando os dois espaços. A chuva desce para a terra e a água retorna ao ambiente atmosférico. O ciclo não termina quando a água toca o solo.

A própria natureza de Oxumaré é marcada pela dualidade. Há tradições em que ele aparece como masculino e feminino, outras que apresentam manifestações ou qualidades diferentes relacionadas a essas duas condições. No Candomblé brasileiro, há fundamentos distintos conforme a nação e a casa, e não é possível transformar uma dessas interpretações em regra universal. O que permanece recorrente é a associação de Oxumarê à duplicidade e à alternância. 

Masculino e feminino aparecem, nesse contexto, como polos que podem pertencer a uma mesma divindade. A mudança de uma condição para outra está de acordo com a própria natureza de Oxumaré: ele não permanece limitado a uma única forma. A dualidade está também na serpente e no arco-íris, na terra e no céu, na permanência e na transformação.

Essa característica guarda uma aproximação simbólica com Exu, embora os dois Orixás tenham campos muito diferentes. Exu está relacionado às passagens, aos caminhos, à comunicação, ao transporte e à circulação entre diferentes pontos. Ele leva e traz, estabelece contato, movimenta mensagens e possibilita que as relações aconteçam. Oxumarê também atravessa espaços, mas sua ênfase está no ciclo que liga esses espaços.

Exu representa o trânsito. Oxumaré representa o ciclo.

A encruzilhada expressa Exu porque reúne caminhos e possibilidades. A serpente e o arco-íris expressam Oxumaré porque relacionam diferentes condições e estabelecem uma continuidade entre elas. Exu abre a passagem; Oxumarê percorre e renova o ciclo.

Ogum também possui relação com caminhos, mas seu caminho é marcado pela ação, pelo trabalho, pelo ferro e pela conquista. Iansã manifesta o movimento por meio dos ventos e das tempestades. Oxum possui sua própria relação com as águas e a prosperidade. Os Orixás podem tocar temas semelhantes sem exercerem a mesma função. É essa diferença que impede que o estudo dos Orixás se transforme em uma lista de atributos intercambiáveis.

As oferendas de Oxumaré também variam conforme a tradição. Não existe uma receita única que possa ser apresentada como universal para todos os terreiros. Em registros de diferentes casas aparecem flores de várias cores, alimentos como batata e batata-doce, água e elementos associados à sua simbologia. Há tradições que indicam lugares de mata, nascentes ou proximidades de águas doces para determinadas entregas. 

A presença de muitas cores nas oferendas acompanha a própria imagem do arco-íris. Flores coloridas podem aparecer como representação dessa multiplicidade, enquanto a água estabelece uma relação direta com o domínio do Orixá. Em algumas tradições, alimentos específicos e outros elementos são definidos de acordo com o fundamento da casa e da qualidade cultuada. Por isso, uma oferenda de Oxumaré não deve ser reproduzida a partir de uma lista encontrada fora do contexto ritual. 

A riqueza também aparece nos objetos associados a Oxumaré. Os búzios são particularmente significativos em algumas narrativas, tanto por sua relação histórica com a riqueza quanto por sua presença no sistema de adivinhação. No itan de Olokun, são precisamente os búzios que aparecem entre os presentes dados a Oxumaré depois que seu conhecimento é reconhecido. O dinheiro, nesse caso, não aparece simplesmente como objeto de posse. Ele representa uma mudança de condição, o reconhecimento de um valor que já existia.

Essa relação ajuda a compreender por que Oxumaré pode ser associado à fortuna sem ser reduzido à ideia contemporânea de “atrair dinheiro”. O Orixá está relacionado à circulação da riqueza, à prosperidade e à continuidade dos ciclos que permitem que a abundância exista. Acumular e interromper o fluxo não expressa a mesma lógica que fazer circular, renovar e produzir novamente.

A relação de Oxumaré com Nanã e Obaluaê também merece ser retomada, mas sem transformar sua aula em uma repetição das anteriores. Nanã nos colocou diante do tempo, da ancestralidade e da matéria. Obaluaê nos levou ao corpo, à doença, à cura, ao envelhecimento e à morte. Oxumaré aparece quando observamos a passagem entre estados.

A morte encerra uma condição, mas os ciclos da natureza continuam. A pele antiga é abandonada para que a serpente continue. A água muda de estado para retornar à terra. A estação termina para que outra comece. A tradição atravessa uma geração e chega a outra.

Essa ideia de continuidade possui uma dimensão muito concreta dentro de uma casa religiosa. Uma tradição só atravessa o tempo quando aquilo que foi aprendido pode ser transmitido. Os mais velhos guardam experiências, conhecimentos e fundamentos que não podem ser substituídos pela pressa de quem acabou de chegar. Ao mesmo tempo, uma casa que não forma novas pessoas limita a própria possibilidade de continuidade.

Uma corrente mediúnica com médiuns novos de idade coloca essa questão de maneira muito clara. O conhecimento recebido dos mais velhos precisa encontrar pessoas que possam aprendê-lo, vivenciá-lo e, no futuro, transmiti-lo. O novo médium não ocupa o lugar de quem veio antes. Ele recebe uma parte dessa história e se torna responsável por levá-la adiante.

A tradição, então, permanece em movimento.

É também nesse ponto que podemos compreender a diferença entre o culto a Oxumarê no Candomblé e sua presença na Umbanda. No Candomblé, Oxumaré possui culto próprio dentro de um universo formado por muitos Orixás, com fundamentos, qualidades e formas rituais que variam conforme as diferentes nações e casas. Sua existência não depende de estar incluído em uma lista reduzida de divindades.

A Umbanda construiu formas próprias de organizar esse universo. Algumas correntes trabalham com sete linhas, outras com nove Orixás e existem ainda outras organizações. Não há uma estrutura única que possa ser aplicada a todos os terreiros. Quando uma casa trabalha com sete ou nove Orixás, isso pode ser compreendido como uma síntese religiosa: um universo muito amplo é organizado em um número menor de grandes linhas ou regências.

Isso explica por que Oxumaré pode ter uma presença muito diferente de uma casa para outra. Em algumas, ele aparece explicitamente como Orixá cultuado; em outras, seus atributos podem estar compreendidos dentro de uma estrutura mais ampla. A ausência de um culto específico não significa necessariamente desconhecimento ou negação do Orixá. A organização teológica é diferente.

Oxumarê é, portanto, um Orixá particularmente adequado para pensar a própria ideia de continuidade. Sua imagem não representa uma coisa que simplesmente permanece. Representa aquilo que permanece porque consegue atravessar mudanças.

A serpente muda de pele. A água muda de estado. O arco-íris aparece e desaparece. O céu recebe a água que retorna à terra. A riqueza circula. O conhecimento passa de uma geração para outra.

Nada disso permanece imóvel.

E talvez seja essa a imagem mais precisa de Oxumaré: não a de uma vida que repete eternamente os mesmos movimentos, mas a de uma existência capaz de mudar de forma sem perder sua continuidade.

Depois de Nanã e Obaluaê, chegamos a um Orixá que nos coloca diante do intervalo entre uma condição e outra. Nanã nos mostrou aquilo que o tempo deposita. Obaluaê nos mostrou aquilo que o corpo vive. Oxumarê nos mostra aquilo que continua circulando.

Entre a terra e o céu, entre a serpente e o arco-íris, entre o masculino e o feminino, entre aquilo que termina e aquilo que começa, Oxumarê permanece em movimento.

Arroboboi, Oxumaré!

Observação sobre o itan: os itãs pertencem originalmente à tradição oral e possuem diferentes versões conforme a tradição, a região e a comunidade que os preserva. O itan utilizado na abertura foi recontado em linguagem própria a partir de uma narrativa tradicional registrada em fontes sobre Oxumaré.

Tema da aula 16.0 do Estudo de Umbanda realizado na Fraternidade de Umbanda Senzala Rosas de Oxalá em 26  de Agosto de 2026. 

@senzalarosasdeoxala


Referências
  1. VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas Africanas dos Orixás. Salvador: Corrupio, 1997.
  2. VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1997.
  3. MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA. Òṣùmàrè. Acervo Museu da Língua Portuguesa. https://acervo.museudalinguaportuguesa.org.br/acervos/museologico?_search=Oxu&_order=_relevance#card-gallery-2
  4. MICHAELIS. Oxumarê. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.                                                                                                                      https://michaelis.uol.com.br/busca?id=5Bw4v

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