Nanã, a Orixá
Existem momentos em que a vida nos coloca diante de experiências que não podem ser simplesmente resolvidas. Há dores que precisam ser atravessadas, perdas que exigem tempo para serem compreendidas e perguntas para as quais talvez nunca tenhamos uma resposta completa. Nesses momentos, o ser humano procura o sagrado. Não necessariamente para encontrar uma explicação para tudo, mas para encontrar consolo, força e sentido para continuar.
É nesse lugar que podemos começar a compreender Nanã.
Quando olhamos para as memórias que carregamos, percebemos que nenhuma história começa exatamente em nós. Há marcas que recebemos, experiências que nos antecederam e uma ancestralidade que continua presente, mesmo quando não conseguimos enxergá-la. Quando observamos os ciclos da existência, percebemos também que a vida é feita de movimentos que não controlamos: nascimento, amadurecimento, transformação, perda, passagem e retorno. A força de Nanã nos aproxima daquilo que veio antes, daquilo que se transforma e daquilo que permanece como mistério.
Nanã é uma das divindades mais antigas das tradições de matriz africana. Sua antiguidade, entretanto, não deve ser entendida apenas como uma questão cronológica. Ela representa uma dimensão do sagrado ligada àquilo que existe antes de nós, àquilo que guarda a memória do mundo e aos processos que antecedem a própria forma que conhecemos.
Para compreender sua natureza, precisamos olhar para um dos seus elementos mais simbólicos: o barro.
Terra e água, quando se encontram, produzem uma matéria que não é mais exatamente uma coisa nem outra. O barro pode ser moldado, transformado, receber uma forma e depois voltar a ser matéria. O barro nos remete à origem. A terra é o lugar de onde viemos e para onde retornamos. Entre esses dois momentos, existe toda a experiência de uma vida. Em diferentes tradições, Nanã aparece relacionada às águas paradas, aos pântanos e à lama. Não são as águas que correm rapidamente em direção ao seu destino, mas aquelas que permanecem, acumulam, sedimentam. A água que se mistura à terra. A matéria que repousa e, aparentemente imóvel, guarda processos que continuam acontecendo em profundidade.
Por isso, Nanã é frequentemente associada tanto à origem quanto à morte, mas seria um erro compreendê-la simplesmente como uma Orixá da morte. Sua força está menos no fim do que na passagem. Menos no encerramento do que na transformação.
A morte, nesse contexto, aparece como parte de um ciclo maior.
Aquilo que tem forma um dia pode retornar à matéria. Aquilo que começa também pode terminar. E aquilo que termina pode, dentro de uma compreensão espiritual da existência, dar lugar a uma nova etapa. Nanã habita esse intervalo entre o que deixa de ser e aquilo que ainda está por vir. Ela é reencarnação. É ancestralidade.
A ancestralidade está presente no que somos. Carregamos nomes, histórias, costumes, conhecimentos, traços e experiências que vieram de muito antes de nossa chegada. Somos parte de uma continuidade.
Nanã representa essa consciência de que ninguém existe isoladamente. Antes de nós, houve outros. Depois de nós, outros virão. Entre esses dois extremos, cada geração recebe alguma coisa, transforma alguma coisa e entrega alguma coisa adiante. Por isso, a sabedoria de Nanã é uma sabedoria do tempo.
Ela não é a pressa de quem deseja respostas imediatas. É o conhecimento de quem compreende que certas coisas precisam amadurecer. Algumas experiências só podem ser entendidas depois que o tempo passa. Algumas dores só revelam seu significado quando conseguimos olhar para elas de outra maneira. Algumas respostas não chegam quando queremos, mas quando estamos preparados para recebê-las.
Nas tradições iorubás e afro-brasileiras, encontramos diferentes narrativas sobre sua origem, seus vínculos e sua relação com outros Orixás. Essas narrativas não formam uma única história universal e imutável. Elas variam de acordo com as tradições e os contextos em que foram preservadas e transmitidas.
Em algumas narrativas, Nanã aparece relacionada à antiguidade da própria criação e a um tempo anterior à organização do mundo como o conhecemos. Sua ligação com a lama e com as águas primordiais reforça essa imagem de uma força ancestral, anterior àquilo que já recebeu forma definida.
Em outras narrativas, sua relação com Oxalá, Omolu e outros Orixás revela diferentes dimensões de sua atuação. A mitologia de Nanã não deve ser lida apenas como uma sequência de acontecimentos sobrenaturais. Os mitos são também uma forma de transmitir conhecimentos sobre as relações entre as forças da natureza, sobre a origem das coisas e sobre os grandes dilemas da existência.
Uma das narrativas mais conhecidas relaciona Nanã à criação do ser humano e ao barro. Segundo essa tradição, quando os seres humanos foram formados, Nanã teria se recusado a permitir que seu barro fosse utilizado, por considerar que aquele elemento pertencia ao seu domínio. Em algumas versões, entretanto, a lama é utilizada para dar forma ao corpo humano, enquanto o sopro divino lhe concede a vida. Ao morrer, o ser humano retorna à terra.
A imagem é poderosa porque apresenta um ciclo completo. O corpo nasce da matéria e à matéria retorna. É como se a própria existência humana carregasse, desde o princípio, a marca de Nanã.
As narrativas também estabelecem relações importantes entre Nanã, Obaluaê e Omolu. Em diferentes versões, encontramos histórias que envolvem abandono, maternidade, cuidado e reconhecimento. Esses mitos revelam reflexões sobre o amor que prepara para a liberdade. Um dos maiores desafios da maternidade é compreender que os filhos não nos pertencem. Eles recebem os primeiros cuidados, aprendem os valores fundamentais e são formados para a vida. Mas chega o momento em que precisam seguir seus próprios caminhos, construir suas famílias, criar novos laços e aprender com as dores e desafios que a existência lhes reserva. E isso pode parecer a o fim / a morte. O verdadeiro amor não aprisiona; ele prepara e permite que o outro caminhe.
Dentro de uma leitura simbólica presente em algumas tradições da Umbanda, Obaluaê representa os ciclos da vida na matéria. Por isso, sua força está ligada às enfermidades, à cura e aos aprendizados que o corpo proporciona. Omolu representa a continuidade desse ciclo para além da matéria, lembrando que a morte não é um fim, mas a passagem da experiência física para a dimensão espiritual. Vida e morte deixam de ser opostos e passam a ser etapas de um mesmo processo.
Essa compreensão também nos ajuda a olhar para o ibiri, o principal símbolo de Nanã. Se o xaxará de Obaluaê expressa sua autoridade sobre os processos de cura, purificação e transformação, o ibiri representa a autoridade da ancestralidade. É o símbolo da mãe que transmite seus ensinamentos antes de permitir que os filhos sigam seus próprios caminhos. Ele representa a herança que atravessa gerações: a sabedoria, os valores e a memória daqueles que vieram antes. Assim como uma mãe não acompanha os filhos em todos os seus passos, mas deixa neles aquilo que realmente importa, Nanã permanece presente por meio dos ensinamentos que entrega antes que cada um cumpra o seu próprio destino.
É importante lembrar que os mitos possuem versões diferentes e que não devem ser tratados como uma única narrativa oficial. Sua riqueza está justamente na multiplicidade. Cada versão ilumina um aspecto da divindade e permite perceber diferentes dimensões de sua natureza. Nessas histórias nascem os simbolos dos Orixas. Nesse caso, o barro, as águas, a terra, o ibiri, suas cores, suas folhas, suas ervas e os elementos associados ao culto de Nanã não são características aleatórias. Eles formam uma espécie de linguagem simbólica. Conhecer esses elementos é, portanto, uma maneira de continuar a leitura dos mitos por outros meios.
As cores também participam dessa linguagem. Nanã é frequentemente associada ao roxo e ao lilás e, em algumas tradições, também ao branco. Essas cores podem variar conforme a vertente religiosa e o fundamento adotado por cada casa. O roxo e o lilás costumam aparecer relacionados à profundidade, à ancestralidade e ao caráter misterioso de sua força. O branco pode surgir em contextos específicos, associado a aspectos de sua dimensão espiritual e ancestral.
É assim que os símbolos deixam de ser uma simples lista de atributos e passam a contar os fundamentos da energia do Orixá. No entanto, por mais que as diferenças ocorram, sempre há alguma semelhança que geralmente define a energia como um todo. No caso de Nanã, há o consenso de sua relação com a natureza e os grandes ciclos da existencia.
Na Umbanda, a compreensão de Nanã não rompe com a tradição africana, mas enfatiza aspectos diferentes de sua mitologia. Os itãs preservam narrativas marcadas por conflitos familiares, abandono, perdas e reconciliações, refletindo questões profundamente humanas presentes no contexto em que foram transmitidos. Já a Umbanda, formada em outro contexto histórico e cultural, privilegiou uma leitura mais espiritual desses mesmos mitos. Por isso, aspectos como o abandono de Obaluaê costumam receber menos destaque, enquanto a autoridade ancestral de Nanã, sua sabedoria e sua relação com os grandes mistérios da vida e da morte passam a ocupar o centro de sua compreensão. Não se trata de uma mudança na essência da Orixá, mas de uma mudança de ênfase. A mesma Nanã dos itãs continua presente, porém contemplada sob uma perspectiva que valoriza principalmente sua dimensão de Mãe Ancestral e guardiã da memória.
Cultuar Nanã é reconhecer sua força. É estabelecer uma relação de respeito, devoção e reverência. É compreender que o sagrado não está apenas naquilo que pedimos, mas também naquilo que somos capazes de reconhecer e agradecer. A oração é uma forma de diálogo. A devoção é uma forma de vínculo. O culto é uma expressão organizada dessa relação. E a oferenda é uma linguagem por meio da qual essa conexão pode ser simbolicamente expressa.
Para compreender isso de maneira mais concreta, podemos observar uma preparação tradicionalmente associada ao culto de Nanã: uma oferenda de frutas.
O preparo começa pelas frutas. A escolha das frutas também pode ser observada dentro da linguagem simbólica da oferenda, além de reforçarem uma das tonalidades tradicionalmente associadas a Nanã, (lilas ou roxo) remetem ao amadurecimento e à transformação.
Pouco observamos que, em tantas oferendas, utilizamos o alguidar. E de que ele é feito? De barro. Justamente um dos elementos mais simbólicos de Nanã. O barro nos fala de origem, matéria e transformação. É ele que recebe e sustenta a oferenda, lembrando-nos que tudo aquilo que existe possui uma origem e está sujeito a se transformar. Assim, a presença de Nanã pode estar ali, discretamente, na própria base sobre a qual colocamos aquilo que oferecemos ao sagrado.
Conhecer os elementos de uma oferenda é importante, mas compreender seu significado é o que transforma uma prática ritual em uma verdadeira expressão de culto. Afinal, quando nos colocamos diante de Nanã, não estamos apenas oferecendo alimentos. Estamos reconhecendo uma força ancestral e estabelecendo, por meio de símbolos concretos, uma relação de respeito, gratidão e reverência.
Esse é o caminho que Nanã nos oferece.
Primeiro, olhar para aquilo que carregamos. Depois, compreender que tudo na existência está sujeito ao tempo e à transformação. E, finalmente, voltar os olhos para a força ancestral que simboliza esse movimento.
Nanã nos leva ao barro porque nos lembra de onde viemos.
Nos leva à ancestralidade porque nos lembra que não começamos em nós mesmos.
Nos leva aos mistérios da vida e da morte porque nos lembra que nem toda transformação é imediatamente compreensível.
Nanã é a terra que recebe, a água que transforma, o barro que dá forma e a ancestralidade que permanece.
É a força diante da qual aprendemos que algumas respostas precisam de tempo.
E que alguns mistérios não existem para serem dominados.
Existem para serem respeitados.
Saluba Nanã!
Tema da aula 14.0 do Estudo de Umbanda realizado na Fraternidade de Umbanda Senzala Rosas de Oxalá em 29 de Julho de 2026.
@senzalarosasdeoxala
- KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Capitulo VI. ed. São Paulo: BesouroLux, 2009.
- PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás.
- VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo.
- SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nagô e a Morte.
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