Nanã e os Ciclos da Vida
Vivemos em uma sociedade que celebra os começos, mas teme os finais. Comemoramos nascimentos, casamentos, conquistas e novos projetos, porém raramente somos preparados para lidar com as despedidas. Perdemos pessoas que amamos, encerramos relacionamentos, mudamos de trabalho, adoecemos, envelhecemos e assistimos, muitas vezes sem compreender, ao fim de fases importantes da nossa existência. Ainda assim, insistimos em acreditar que a felicidade depende da permanência, quando a própria natureza nos ensina exatamente o contrário.
Nada permanece igual. As estações se sucedem, o dia dá lugar à noite, as folhas caem para que novas possam brotar e as sementes precisam desaparecer sob a terra antes de se transformarem em árvores. A vida não é construída pela permanência, mas pelo movimento contínuo dos ciclos. Nascer, crescer, amadurecer, transformar-se e recomeçar fazem parte da própria Lei Divina.
Essa dinâmica da criação encontra expressões na vibração de Nanã. Considerada uma das mais antigas manifestações da Lei de Deus, Nanã representa o tempo que amadurece, a experiência acumulada e a sabedoria construída ao longo da caminhada espiritual. Seu domínio não é o tempo marcado pelos relógios, mas o tempo necessário para que a alma assimile suas experiências e transforme sofrimento em consciência. Por isso, Nanã não é lembrada apenas como a Senhora do Tempo. Ela é a Senhora dos Ciclos.
Tudo aquilo que nasce um dia se transforma. Nada escapa a essa lei. O nascimento inicia um ciclo. A infância termina para dar lugar à juventude. A juventude amadurece na vida adulta. O corpo envelhece. O espírito desencarna. Para Nanã, não existem fins absolutos. Existem transformações. Essa ideia se conecta ao barro, um dos principais símbolos de Nanã. Segundo a tradição iorubá, foi do barro pertencente a Nanã que Oxalá moldou os corpos humanos. Independentemente da leitura literal desse itan, seu simbolismo é extraordinário. O barro recebe marcas, conserva impressões e pode ser remodelado inúmeras vezes sem perder sua essência. Assim também acontece com o espírito. As experiências deixam marcas, mas nenhuma delas define definitivamente quem somos. A reforma íntima consiste justamente em permitir que Deus continue moldando nossa consciência.
Essa pode ser a razão pelo qual Nanã seja representada como uma anciã. A velhice, por si só, não produz sabedoria. O que produz sabedoria é a capacidade de aprender com aquilo que foi vivido. Existem pessoas jovens profundamente maduras e idosos que continuam repetindo os mesmos conflitos de toda uma vida. Nanã simboliza a consciência que deixou de lutar contra o tempo e aprendeu a caminhar com ele, fazendo-nos refletir sobre as "perdas".
A psicologia demonstra que o sofrimento provocado por uma perda não depende apenas do acontecimento em si, mas do significado que atribuímos a ele. Aliás, o luto não está restrito ao desencarne porque também vivemos processos de luto quando uma amizade termina, quando perdemos um emprego, quando um filho deixa a casa dos pais, quando adoecemos ou quando precisamos abandonar projetos que já não fazem sentido. Toda despedida exige uma reorganização da identidade. De certa forma, toda perda nos obriga a descobrir quem somos sem aquilo que antes fazia parte da nossa vida.
Nanã nos ensina que elaborar uma perda significa integrar aquela experiência à própria história. Continuamos amando quem partiu, lembrando das pessoas importantes e valorizando aquilo que vivemos, mas deixamos de permitir que a ausência impeça nossa capacidade de continuar vivendo.
Mas como fazer isso?
O primeiro ensinamento de Nanã é aceitar que o ciclo terminou. Aceitação não é resignação nem conformismo. É reconhecer a realidade para que o espírito possa caminhar. Enquanto negamos o fim de uma etapa, permanecemos presos a ela. A árvore não resiste ao outono. Ela compreende que perder as folhas faz parte do caminho para florescer novamente.
O segundo ensinamento é permitir-se viver o luto. Chorar não demonstra fraqueza espiritual. Sentir saudade não significa falta de fé. A Umbanda jamais ensinou que o sofrimento deva ser escondido. A dor precisa ser acolhida para que deixe de ser desespero e se transforme em aprendizado.
O terceiro ensinamento é descobrir o que aquela experiência deixou em nós. Toda perda modifica nossa maneira de enxergar a vida. Algumas despertam maior humildade. Outras desenvolvem compaixão, paciência ou coragem. Nanã nos convida a perguntar menos “por que isso aconteceu?” e mais “como posso crescer a partir disso?”. É nesse momento que o sofrimento começa a produzir sabedoria.
O quarto ensinamento é compreender que a vida continua. Grande parte das pessoas entende que a morte representa o encerramento da vida terrena, seguido do destino definitivo da alma (vida eterna) conforme sua fé e suas obras (julgamento final). A Umbanda, influenciada pela tradição africana e pelo princípio reencarnacionista, compreende o desencarne como uma passagem. O espírito abandona o corpo físico, mas continua existindo, aprendendo e evoluindo no plano espiritual. A morte rompe apenas o vínculo material. A vida permanece.
Essa compreensão não elimina a saudade, mas modifica a maneira de vivê-la. Não sofremos porque o amor acabou. Sofremos porque a convivência mudou. A oração, a confiança na Lei Divina e a certeza de que cada espírito seguirá seu caminho permitem que a saudade se torne mais serena. Amar também é permitir que o outro continue sua caminhada. Allan Kardec também desenvolve essa compreensão ao explicar que a vida continua além da matéria e que as provas da existência possuem finalidade educativa. A Umbanda acolhe esse princípio, mas o interpreta a partir de sua própria tradição, reconhecendo os Orixás como manifestações da Lei Divina e compreendendo o desencarne como mais uma etapa da evolução do espírito. Nessa perspectiva, a caminhada espiritual não se encerra após a morte. Os espíritos continuam aprendendo, evoluindo e, quando autorizados pela Lei Maior, retornam em auxílio daqueles que permanecem na Terra. É o que vemos nas linhas de trabalho da Umbanda, formadas por entidades que, em sua maioria, viveram experiências humanas e hoje colaboram com a evolução dos encarnados enquanto prosseguem, elas próprias, em seu processo evolutivo. Por essa razão, a ideia de um destino definitivo e imutável da alma após a morte, no céu ou no inferno, não se harmoniza com a cosmologia umbandista. Cuidado, Umbandista!. A Umbanda compreende a existência como um caminho contínuo de aprendizado, serviço e aperfeiçoamento espiritual, no qual o trabalho em favor do próximo permanece como um dos principais instrumentos de evolução.
Nesse processo, a vibração de Nanã torna-se um importante amparo espiritual. Ela nos convida ao recolhimento, à oração e à aceitação consciente dos ciclos da existência. Essa relação se fortalece pela oração, pela contemplação da natureza e pelas oferendas realizadas com respeito às tradições de cada terreiro. Diferentemente da ideia de troca ou barganha espiritual, a oferenda é um ato de devoção, gratidão e alinhamento com a vibração do Orixá.
Quando um umbandista prepara uma oferenda para Nanã, o gesto exterior representa um compromisso interior. Antes mesmo de escolher os elementos tradicionais, é convidado a refletir sobre quais ciclos precisam ser encerrados em sua própria vida. Que mágoas ainda carrega. Quais medos impedem seu crescimento. Que perdas ainda não conseguiu integrar à sua história.
Em muitas tradições umbandistas, são oferecidas flores em tons lilases, roxos ou brancos, frutas, água, canjicas ou outros elementos próprios da raiz religiosa da casa. Cada terreiro preserva fundamentos específicos que devem ser respeitados. Mais importante do que a composição da oferenda é a intenção com que ela é realizada. Nesse momento, não pedimos a Nanã que elimine nossas dores, mas sim que Ela nos ensine a atravessa-las. É essa a essência do culto aos Orixás. A oferenda não muda Deus. Ela muda quem oferece. Ao dobrar os joelhos diante de Nanã, reconhecemos que há processos que não podem ser apressados e que algumas respostas chegam apenas quando o espírito amadurece.
Depois da entrega, Nanã ainda ensina um último passo. Continuar vivendo.
A melhor maneira de honrar quem partiu, um sonho que terminou ou uma fase que ficou para trás não é permanecer preso ao passado, mas permitir que aquela experiência produza frutos no presente. A caridade ocupa lugar central nesse processo. Servir ao próximo, dedicar tempo ao terreiro, consolar quem sofre ou praticar o bem transforma a dor em força criadora. O sofrimento deixa de ser apenas uma experiência individual e torna-se fonte de crescimento espiritual. Assim como o barro pode ser moldado inúmeras vezes sem perder sua essência, também nós podemos reorganizar nossas dores, aprender com nossas perdas e iniciar novos ciclos sem abandonar aquilo que nos tornou quem somos. Não podemos apagar nossa história, mas podemos permitir que Deus continue moldando nosso espírito por meio dela.
Quando compreendemos essa verdade, deixamos de enxergar os finais apenas como despedidas. Passamos a reconhecê-los como parte da própria criação. E entendemos que, sob a força misteriosa de Nanã, todo encerramento é também um convite para que Deus continue moldando o espírito em direção à sua evolução.
Saluba Nanã!
Nota do autor: Dedico este texto aos meus primos e familiares, em memória do nosso querido Tio Felício, que partiu no início deste mês. Que a sabedoria de Nanã fortaleça nossos corações, transformando a saudade em gratidão e a dor da despedida em esperança na continuidade da vida.
Tema da aula 13.0 do Estudo de Umbanda realizado na Fraternidade de Umbanda Senzala Rosas de Oxalá em 15 de Julho de 2026.
@senzalarosasdeoxala
- KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Capitulo V e XI. ed. São Paulo: BesouroLux, 2009.
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- SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nagô e a Morte.
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