OGUM ALÉM DO GUERREIRO

A ideia de “caminho” atravessa diferentes tradições religiosas como metáfora de escolha, destino e transformação. No Evangelho Segundo o Espiritismo, organizado por Allan Kardec, o ensinamento “buscai e achareis” estabelece uma lógica direta: a ação antecede a resposta, o movimento antecede a abertura. Esse princípio serve como ponto de partida para compreender uma das forças mais dinâmicas das religiões de matriz africana.

Mas, para isso, é preciso entender o que é caminhar.
O caminho depende do contexto, do território e das condições de quem percorre. Em determinados momentos, abrir caminhos significava garantir sobrevivência. Em outros, significa tomar decisões, romper ciclos ou enfrentar conflitos. O caminho não é fixo. Ele só existe quando alguém se coloca em movimento dentro de uma realidade.

Ogum é caminho. É movimento.

Nas tradições iorubás da África Ocidental, Ogum ocupa posição central como orixá do ferro, da guerra e da tecnologia. O ferro, nesse contexto, simboliza transformação, domínio técnico e intervenção no mundo concreto. Ferramentas, armas e instrumentos de trabalho dependem dele. Ogum representa a capacidade de agir sobre a realidade e, principalmente, de modificá-la para o progresso.

Essa dimensão prática ajuda a entender por que Ogum é associado ao desbravamento. Pesquisas etnográficas como as de Pierre Verger descrevem um orixá que abre trilhas, torna o território transitável e possibilita o avanço das comunidades. Em contextos tradicionais, abrir caminhos não era metáfora. Era sobrevivência.

Dentro desse mesmo contexto, o culto a Ogum também acompanha a realidade local. Em algumas tradições africanas, por exemplo, é comum oferecer carne de cachorro ao orixá. Esse tipo de prática não é universal, mas responde à organização cultural de cada região.

Ogum também não se manifesta de forma única. Dentro da tradição iorubá, existem as chamadas Ìrá, formas ou qualidades através das quais o orixá se manifesta. Essas manifestações não dividem o orixá. Elas expressam sua atuação em diferentes contextos. Em diferentes regiões da Nigéria e áreas de influência iorubá, Ogum assume características específicas conforme o ambiente e a organização social. Comunidades guerreiras, agrícolas ou comerciais enfatizam aspectos distintos. O orixá responde à necessidade daquele território. É nesse sentido que Reginaldo Prandi expõe a ideia de “Ogum regional”.

Algumas manifestações ajudam a visualizar essa lógica. Ogum Rompe-Mato expressa uma Ìrá voltada à ação direta, ligada ao desbravamento e à abertura de caminhos. Ogum Beira-Mar manifesta uma Ìrá associada à transição e adaptação, indicando caminhos que exigem flexibilidade e leitura do contexto. Ogum Megê se relaciona com processos de transformação, encerramento e reorganização. Ogum Xoroquê aparece como uma manifestação mais complexa, associada a caminhos que exigem estratégia e consciência das consequências.

O que muda não é Ogum. É o tipo de caminho e a necessidade envolvida.

Essa capacidade de adaptação ajuda a entender o sincretismo.

O conceito de “soft power” descreve como culturas se expandem por influência, adaptação e identificação, sem imposição direta. Em vez de substituir o que já existe, elas se integram, se reorganizam e passam a fazer parte do cotidiano. O sincretismo religioso segue essa mesma lógica. Não é perda de identidade, mas continuidade por adaptação. Essa lógica já estava presente nas formações africanas e ajuda a compreender o que acontece quando essas tradições atravessam outros territórios.

Com o tráfico de escravizados, essa cosmologia atravessa o oceano e se reorganiza no Brasil. Na Umbanda, Ogum mantém sua essência, mas amplia seu campo de atuação. Aquilo que, em muitos contextos africanos, estava diretamente ligado ao território físico e à sobrevivência coletiva, passa a se manifestar com mais evidência na vida cotidiana, nas decisões e nos conflitos individuais. Não se trata de uma mudança de natureza, mas de contexto.

As formas de culto também se adaptam. O que em algumas tradições africanas inclui carne de cachorro não seria aceito socialmente no Brasil, inclusive por questões legais. Ainda assim, isso não impede o culto. Na Umbanda, são frequentes oferendas como feijoada e cará, mostrando que a adaptação não altera a essência.

Dentro desse mesmo processo, a associação com São Jorge amplia sua circulação simbólica. Em locais como o Rio de Janeiro, celebrações dedicadas ao santo reúnem multidões que, direta ou indiretamente, também reverenciam Ogum. Assim como nas Ìrá africanas, vemos a mesma força se manifestando de formas diferentes conforme o ambiente.

A partir daí, entra uma distinção essencial. A função de Ogum frequentemente é confundida com a de Exu. Ambos se relacionam com caminhos, mas em momentos diferentes. Ogum abre o caminho. Exu responde ao caminho escolhido.

Enquanto Ogum cria a possibilidade, Exu regula o fluxo e devolve as consequências das escolhas realizadas. A ação gera resposta. O caminho aberto passa a ter direção conforme é percorrido. Em outras palavras, Ogum inicia e Exu garante as consequências. Essa leitura evidencia uma relação de complementaridade.

Essa mesma lógica aparece na relação simbólica entre Ogum e Iemanjá. Se Ogum representa o movimento que rompe e inicia caminhos, Iemanjá representa o movimento contínuo da vida. O mar, seu principal símbolo, nunca está estático. Ondas e marés expressam fluxo constante, sustentação e transformação. Ogum abre o caminho. Iemanjá mantém o fluxo dentro dele. Não se trata de oposição entre masculino e feminino, mas de continuidade dentro do mesmo princípio.

Ogum se revela quando a vida exige movimento. Mudanças, rupturas e decisões inevitáveis carregam sua assinatura simbólica. O elemento comum é a ação. A ideia inicial retorna com clareza: a ação antecede a abertura. Ogum transforma essa ação em necessidade. Ele desloca, rompe a inércia e inaugura trajetos. Esse processo pode gerar desconforto ao retirar o indivíduo de zonas de segurança, mas é justamente nessa ruptura que a transformação se torna possível.

Ogum não controla o percurso. Ele apenas inaugura a possibilidade de caminhar. A partir daí, o caminho deixa de ser abertura e passa a ser escolha. E o que se constrói ao longo dele depende de quem decide seguir, já que as consequências acompanham inevitavelmente cada passo dado.


Ogunhê, meu Pai!

Tema da aula 7.0 do Estudo de Umbanda realizado na Fraternidade de Umbanda Senzala Rosas de Oxalá em 22 de Abril de 2026. 

@senzalarosasdeoxala


Referências

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.

VERGER, Pierre. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 2002.

PRANDI, Reginaldo. Ogum: o deus do ferro, dos caminhos e da guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1971.

ELBEIN DOS SANTOS, Juana. Os nagô e a morte. Petrópolis: Vozes, 2002.

SUPERINTERESSANTE. Soft power: como culturas conquistam o mundo sem guerra. São Paulo: Editora Abril, ed. 483, jan. 2026.

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