A natureza dos Orixás: Além da direita e da esquerda.

Muitas pessoas ainda veem os Orixás de forma negativa (ou nem tão positiva), e isso costuma nascer de alguns equívocos bastante comuns. Há quem acredite que seus cultos são politeístas, como se isso por si só representasse algo ruim. Outros encaram os itãs como verdades literais e absolutas, sem considerar seu caráter simbólico. Também é frequente a ideia de que os Orixás são entidades, muitas vezes associadas à chamada esquerda, como se esquerda significasse algo negativo. Soma-se a isso a crença de que Orixás incorporam diretamente nas pessoas, como se pudessem “tomar” o corpo de alguém, como um espirito ruim. 

Essas interpretações, embora muito difundidas, não se sustentam quando analisadas com mais profundidade. Elas revelam mais sobre construções culturais e preconceitos do que sobre a natureza dos próprios Orixás. É nesse cenário que surge uma pergunta recorrente: afinal, os Orixás pertencem à direita ou à esquerda? São bons ou ruins? A questão, à primeira vista simples, revela mais sobre a forma como pensamos o mundo do que sobre a própria natureza do sagrado.

Se abrirmos O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo IX, encontramos uma chave importante de compreensão. Ao afirmar que a verdadeira força está no domínio de si mesmo, e não na imposição ou na violência, Allan Kardec nos convida a sair da lógica do confronto e a entrar no campo do equilíbrio. Essa perspectiva nos aproxima de uma visão mais ampla do divino, em que o que é elevado não se prende a extremos, mas se expressa na harmonia entre eles. Ainda assim, ao se depararem com a presença de diversos Orixás, muitas pessoas passam a interpretar essa tradição como politeísta em um sentido negativo, como se estivéssemos diante de deuses independentes que competem entre eles e o Deus "cristão" por poder soberano. Essa leitura nasce de uma compreensão superficial dos conceitos.

De forma geral, o monoteísmo se fundamenta na crença em um único princípio divino, enquanto o politeísmo reconhece múltiplas divindades independentes, com vontades próprias. No entanto, a presença de múltiplas figuras sagradas não define, por si só, uma tradição como politeísta. No caso da Umbanda, o entendimento é outro: trata-se de uma visão essencialmente monoteísta.

Existem tradições religiosas, como  a Umbanda e o Catolicismo, em que a multiplicidade não representa divisão, mas manifestação. Nessa perspectiva, o divino é uno em sua essência, mas se expressa de diferentes formas para se tornar acessível à experiência humana. A diversidade de nomes, símbolos e forças não fragmenta o sagrado, mas revela suas diferentes dimensões. Assim como ocorre com as diversas formas de devoção à mãe de Jesus, Maria, também os Orixás podem ser compreendidos como expressões da unidade divina.

Quando voltamos o olhar para as tradições africanas, especialmente entre os povos iorubás da África Ocidental, em regiões como a atual Nigéria, os Orixás aparecem sob uma luz distinta da que muitas vezes encontramos no imaginário popular brasileiro. Longe de serem figuras moralizadas, “boas” ou “más”, eles são compreendidos como expressões do àṣẹ (ou Axé), a força vital que sustenta e movimenta o universo. Como destacam estudiosos como Wande Abimbola e Jacob K. Olupona, os Orixás são princípios que tornam a própria natureza possível. Eles não são o vento ou o rio em si, mas aquilo que permite que o vento sopre e o rio flua. Essa distinção conduz a uma leitura mais precisa: os Orixás como estruturas do existir. Não personagens, não espíritos humanos elevados, mas dimensões da própria realidade divina. 

Na Umbanda, os Orixás ocupam o campo do divino estruturante: são princípios universais, não individualizados, que não incorporam nem possuem história pessoal. Quando falamos de Orixás como Oxalá, Ogum, Xangô, Nanã, Oxum, Iansã, Iemanjá, Oxóssi e Obaluaiê, estamos nos referindo a esses princípios em manifestação, e não a entidades espirituais com identidade própria.

Na prática, dizer que Xangô, por exemplo, é um princípio universal da justiça não significa que exista um homem julgando pessoas. Significa que existe uma lei de equilíbrio que organiza causas e consequências, que tende a ajustar excessos e corrigir distorções. Quando alguém busca agir com retidão, assumir consequências ou reparar erros, está, de certa forma, em sintonia com esse princípio. O nome Xangô é a forma simbólica, cultural e religiosa de acessar, compreender e se relacionar com essa dimensão da realidade.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a Oxum. Ao dizer que Oxum é o princípio do amor, da sensibilidade e da fluidez emocional, não se trata de uma entidade distribuindo afeto como uma ação pessoal. Trata-se de uma qualidade da existência que se manifesta quando há acolhimento, quando vínculos são nutridos, quando alguém desenvolve empatia ou aprende a cuidar de si e do outro. Quando uma pessoa se abre para o afeto, trabalha sua autoestima ou aprende a lidar com suas emoções de forma mais equilibrada, ela entra em sintonia com esse princípio. Oxum, nesse sentido, é o nome que organiza e dá forma simbólica a essa experiência.

Parte da dificuldade em compreender isso vem da forma como os Orixás são apresentados através dos chamados itãs, as narrativas tradicionais de origem iorubá que descrevem feitos, conflitos e relações entre essas divindades. Nesses relatos, os Orixás aparecem com características humanas, sentem, erram, disputam, amam e aprendem. Essa linguagem não indica que eles sejam, de fato, seres humanos divinizados, mas funciona como um recurso pedagógico e simbólico para tornar compreensíveis princípios abstratos e universais.

Segundo estudos de Reginaldo Prandi, os itãs organizam a mitologia dos Orixás de forma narrativa, permitindo que conceitos complexos sejam transmitidos por meio de histórias e realidades do povoado. Ao dizer, por exemplo, que Xangô foi impulsivo em determinado mito ou que Oxum precisou desenvolver sabedoria para além da beleza, não se está descrevendo biografias literais, mas ilustrando aspectos das forças que esses Orixás representam e como elas se equilibram, igualmente acontecem  nas parábolas de Jesus.

Ao chegarem no Brasil, muitas vezes fora do contexto ritual e filosófico original, foram interpretados de forma literal (como ocorre com as parábolas de Jesus).  Essa leitura tende a reforçar a ideia de Orixás como “personagens”, aproximando-os de entidades espirituais e contribuindo para confusões sobre sua natureza. Ainda assim, os itãs continuam cumprindo um papel importante: aproximar o humano do divino por meio de imagens, exemplos e histórias que facilitam a compreensão daquilo que, em essência, não é humano.

Outra parte da dificuldade em compreender Orixás, acontece quando todas essas concepções atravessam o Atlântico durante o período da escravidão e se enraízam no Brasil. No encontro com o catolicismo, o espiritismo e as culturas indígenas, nasce a Umbanda, uma religião brasileira que reorganiza esses princípios em um "novo" sistema simbólico.

É nesse contexto que surge, com força sob as tradições não-cristãs, a divisão entre direita e esquerda. Essa separação dialoga com heranças simbólicas do Ocidente cristão, presentes na Bíblia, onde a direita é associada aos justos e a esquerda aos condenados. O antropólogo Robert Hertz, no início do século XX, apontava que essa valorização da direita em detrimento da esquerda é uma construção cultural e política, não uma verdade universal e muito menos espiritual.

Na Umbanda, essa divisão assume um caráter funcional. A chamada “direita” se relaciona à ordem, à organização e à sustentação do coletivo. A “esquerda” se associa à transformação, ao enfrentamento das tensões individuais e aos processos que desestabilizam para permitir mudança. Quando essa leitura simbólica é convertida em julgamento moral, surgem distorções. A direita passa a ser vista como espaço exclusivo do bem, enquanto a esquerda é associada ao erro.

Essa leitura interfere diretamente na vivência espiritual. Ao privilegiar apenas a ordem (direita), perde-se a capacidade de lidar com conflitos, desejos e contradições humanas (esquerda). Ao rejeitar a dimensão transformadora (esquerda), bloqueia-se o próprio processo de evolução (direita). 

Nesse ponto, a figura de Jesus Cristo oferece uma chave interessante. Frequentemente apropriado como símbolo exclusivo da “direita espiritual”, Jesus, na prática, transitou entre polos. Ele organizou valores éticos universais, mas também rompeu normas sociais, acolheu marginalizados e confrontou estruturas rígidas de poder religioso. Sua atuação não confirma a divisão, ela a transcende.

Essa reflexão se amplia quando observamos também a ideia de combate espiritual. A noção de que a espiritualidade elevada destrói inimigos encontra respaldo em construções históricas, como na Inquisição, em que a fé foi usada como justificativa para violência: A direita (cristã) contra a esquerda (pagã). No campo espiritual, o que se observa é outro movimento: estados de desequilíbrio são tratados, encaminhados e transformados. O chamado inimigo é compreendido como uma condição a ser reorganizada e amparada, mas nunca violentada. 

Todavia, o conceito de direita e esquerda popularizado (incorretamente) acabou por demonizar tradições não-cristãs atribuindo-as como entidades de esquerda. Logo, passaram a associar Orixá como simples entidade da esquerda e o mal a ser combatido, principalmente nos contextos da mediunidade de incorporação. Tudo isso resulta em mais um erro porque , como já foi dito, orixás não são entidades e portanto não podem ser "incorporadas".

Conforme destaca Norberto Peixoto, na obra Umbanda Pé no Chão, não incorporamos Orixás, pois eles não são espíritos, mas energias cósmicas. O que ocorre é a recepção de sua irradiação, mediada por espíritos altamente evoluídos e capacitados para sustentar e transmitir essa vibração. No contexto brasileiro, essa mediação ocorre com frequência através dos Caboclos específicos, cuja afinidade com as forças da natureza permite essa canalização de forma estável e compreensível ao médium.

Esse entendimento se sustenta também por uma questão de natureza energética e ontológica. Em termos simples, energética porque a “intensidade” ou vibração dos Orixás é ampla demais para ser sustentada diretamente por um corpo humano, exigindo uma espécie de adaptação; e ontológica porque estamos falando da natureza do que eles são: não indivíduos com personalidade própria, mas princípios universais, diferentes das entidades que possuem identidade e trajetória. A incorporação pressupõe individualidade, identidade e história, características próprias das entidades espirituais. Os Orixás, enquanto princípios universais, não operam nesse nível. O médium vivencia estados de sintonia, expansão de consciência e alinhamento vibratório, sem que haja a presença direta da divindade como um “ser” incorporado.

Essa organização encontra paralelo em outras tradições religiosas. No Hinduísmo, há distinções entre o absoluto, as divindades que expressam princípios cósmicos e as manifestações acessíveis à experiência humana. Essa estrutura permite compreender diferentes níveis de relação com o sagrado sem reduzir o divino a uma única forma.

Ao observar esse conjunto de ideias, fica claro que grande parte do preconceito em relação aos Orixás nasce de interpretações equivocadas. Superar essas visões exige ampliar o olhar. Não se trata apenas de defender uma tradição religiosa, mas de compreender o sagrado de forma mais madura. Os Orixás não cabem em classificações simplistas nem em julgamentos morais reduzidos. Eles expressam uma realidade mais ampla, em que forças aparentemente opostas fazem parte de um mesmo processo.

No fim, o verdadeiro movimento talvez seja interno. Quando deixamos de lado a necessidade de rotular e julgar, nos aproximamos de uma espiritualidade mais integrada, capaz de reconhecer a complexidade da vida e do divino sem reduzi-los a categorias limitadas.


Tema da aula 6.0 do Estudo de Umbanda realizado na Fraternidade de Umbanda Senzala Rosas de Oxalá em 08 de Abril de 2026. 

@senzalarosasdeoxala

Bibliografia e referências

  • O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec
  • Umbanda Pé no Chão – Norberto Peixoto
  • Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi
  • Segredos Guardados – Reginaldo Prandi
  • African Religions and Philosophy – John S. Mbiti
  • City of 201 Gods – Jacob K. Olupona
  • Ifá: An Exposition of Ifá Literary Corpus – Wande Abimbola
  • Death and the Right Hand – Robert Hertz
  • The Origin of Satan – Elaine Pagels
  • Fields of Blood – Karen Armstrong
  • An Introduction to Hinduism – Gavin Flood


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