O Evangelho Segundo o Espiritismo ensina que não se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire. A luz existe para iluminar, e o conhecimento existe para ser compartilhado. A espiritualidade não foi dada ao ser humano para permanecer escondida por orgulho, egoísmo ou desejo de poder. Entretanto, existe uma diferença importante entre transmitir conhecimento e expor experiências. Existe uma diferença entre ensinar e comentar tudo. Existe uma diferença entre iluminar e tornar público cada aspecto da vida espiritual.
Essa diferença parece cada vez mais difícil de perceber. Vivemos em uma época em que quase tudo precisa ser compartilhado. Sentimentos são publicados, pensamentos são expostos e experiências são comentadas em tempo real. A sensação é que algo só se torna verdadeiro quando é contado. O silêncio passou a ser confundido com ausência, enquanto a exposição passou a ser confundida com autenticidade.
Essa lógica também alcançou a espiritualidade (infelizmente).
É comum encontrar médiuns que sentem necessidade de relatar cada sensação percebida durante uma gira. Consulentes frequentemente procuram diversas interpretações para uma orientação recebida de uma entidade antes mesmo de refletirem sobre ela. Dirigentes, cambonos e trabalhadores espirituais nem sempre percebem o quanto determinadas conversas, comentários e especulações podem interferir em processos que ainda estão em desenvolvimento.
A Umbanda é uma religião construída sobre a comunicação. Os pontos cantados ensinam. As entidades orientam. Os dirigentes esclarecem. Os médiuns aprendem pela convivência e pela troca de experiências. Ao mesmo tempo, a Umbanda também preserva uma sabedoria antiga: nem tudo deve ser dito no momento em que acontece.
Isso não ocorre porque exista interesse em esconder informações, mas sim porque algumas experiências precisam de tempo para produzir seus efeitos.
A natureza oferece inúmeros exemplos desse princípio. A semente não rompe a terra no mesmo instante em que é plantada. A cura de uma ferida acontece antes que a pele apresente sinais visíveis de recuperação. O crescimento de uma árvore ocorre silenciosamente durante anos antes que ela produza frutos. Os processos mais importantes da vida raramente acontecem diante dos olhos.
A experiência espiritual segue lógica semelhante.
Quando alguém recebe um passe, uma orientação de um Preto-Velho, um conselho de um Caboclo ou uma mensagem de um Exu, algo pode começar a se movimentar internamente. Nem sempre essa transformação será compreendida imediatamente. Muitas vezes, o ensinamento só revela sua profundidade dias, semanas ou meses depois. A ansiedade por interpretar rapidamente aquilo que foi vivido pode interromper esse processo. É nesse ponto que o mistério assume seu verdadeiro significado.
Hoje, muitas pessoas associam mistério à ideia de segredo. Dentro da espiritualidade, porém, mistério não é aquilo que está escondido. Mistério é aquilo que ainda não terminou de se revelar. É uma realidade que continua produzindo efeitos mesmo depois que acreditamos tê-la compreendido.
Quando uma entidade oferece uma orientação simples para um problema complexo, ela nem sempre está entregando todas as respostas. Muitas vezes está oferecendo uma direção para que o próprio indivíduo participe da construção da compreensão. O mistério não existe para impedir o aprendizado. Ele existe para impedir que o aprendizado seja reduzido a uma explicação superficial. Nesse processo, o silêncio desempenha papel fundamental e deve ser considerado.
Silêncio não significa apenas ficar calado. Silêncio é a capacidade de permanecer diante de uma experiência sem a necessidade imediata de transformá-la em narrativa. É permitir que a vivência fale antes que a interpretação tome conta dela.
Essa ideia encontra respaldo inclusive na psicologia contemporânea. Pesquisas sobre o compartilhamento social das emoções demonstram que experiências emocionalmente significativas despertam forte necessidade de serem contadas. Falar produz alívio emocional e reduz a tensão provocada pela incerteza. No entanto, pesquisadores observaram que compartilhar uma experiência não é a mesma coisa que compreendê-la. Em muitos casos, a pessoa passa a repetir a história diversas vezes sem aprofundar seu entendimento sobre aquilo que viveu. Em outras palavras, falar pode aliviar a ansiedade sem necessariamente produzir sabedoria.
Esse fenômeno ajuda a explicar situações comuns dentro dos terreiros. Um médium sente algo durante uma gira e imediatamente procura confirmação. Um consulente recebe uma orientação e busca diversas opiniões sobre ela. Uma experiência espiritual ainda em desenvolvimento é transformada em assunto antes mesmo que seus efeitos possam ser observados. Sem perceber, a experiência deixa de ser vivida e passa a ser discutida.
Por essa razão, algumas práticas simples podem fortalecer a capacidade de preservar o silêncio. Uma delas é a chamada regra das vinte e quatro horas. Diante de uma experiência espiritual significativa, evita-se comentá-la imediatamente. Não se busca interpretação externa. Não se procura validação. Durante esse período, a pessoa apenas observa o que continua acontecendo dentro de si. Muitas vezes, respostas que pareciam urgentes surgem naturalmente quando a ansiedade diminui.
Outra prática útil é substituir a fala pela escrita. Estudos sobre escrita reflexiva demonstram que registrar pensamentos em um caderno ajuda a organizar emoções e percepções sem a influência imediata das opiniões alheias. Em vez de transformar a experiência em conversa, a pessoa a transforma em observação. O foco deixa de ser convencer os outros e passa a ser compreender a si mesma.
Essas observações encontram correspondência em virtudes presentes nos próprios Orixás cultuados na Umbanda.
Oxalá representa a serenidade, a clareza e a ponderação. Sua força não se manifesta pela pressa nem pela impulsividade. Oxalá ensina que a compreensão verdadeira raramente nasce da agitação. Antes de responder, é preciso observar. Antes de concluir, é preciso compreender.
Nanã manifesta a sabedoria do tempo. Tudo aquilo que possui profundidade exige maturação. Não existe fruto antes da raiz. Não existe colheita antes do cultivo. A ansiedade por respostas imediatas frequentemente produz conclusões frágeis. Nanã recorda que algumas verdades só se revelam quando estamos preparados para recebê-las.
Omulu, por sua vez, expressa o valor do recolhimento. A cura acontece no interior do organismo antes de se tornar visível. A transformação ocorre dentro do casulo antes que a borboleta apareça. O recolhimento não é isolamento nem fuga. É uma etapa necessária para que determinados processos completem seu ciclo.
Quando observamos essas virtudes em conjunto, percebemos que o silêncio espiritual não é passividade. Trata-se de uma postura ativa de observação, maturação e respeito pelos processos da vida. O silêncio de Oxalá é a ponderação. O silêncio de Nanã é a maturação. O silêncio de Omulu é o recolhimento.
Talvez por isso a maturidade espiritual seja frequentemente menos barulhenta do que imaginamos. À medida que a caminhada avança, muitas pessoas descobrem que não precisam comentar tudo o que percebem, nem explicar tudo o que sentem. Aprendem que algumas experiências perdem profundidade quando são expostas cedo demais. Aprendem que certas respostas chegam apenas quando a necessidade de encontrá-las diminui.
O silêncio não impede o conhecimento. Pelo contrário. Em muitos casos, ele cria as condições necessárias para que o conhecimento amadureça.
A Umbanda é uma religião de palavra, de canto e de orientação. Mas também é uma religião que reconhece o valor do silêncio. Nem porque existam verdades proibidas, nem porque existam segredos reservados a poucos. O silêncio é importante porque algumas transformações precisam de espaço para acontecer.
Nem tudo o que é vivido precisa ser imediatamente explicado.
Nem tudo o que é verdadeiro precisa ser imediatamente contado.
Há experiências que só revelam sua profundidade quando aprendemos a permanecer com elas em silêncio. E, muitas vezes, é justamente (ou somente) nesse silêncio que a espiritualidade continua trabalhando.
Tema da aula 11.0 do Estudo de Umbanda realizado na Fraternidade de Umbanda Senzala Rosas de Oxalá em 17 de Junho de 2026.
Referências
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